“O Capeta Caolho contra a Besta Fera” – Everaldo Rodrigues

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O Capeta Caolho contra a Besta Fera é um livro fantástico tanto pela sua história quanto pela escrita de Everaldo.
“Terezinha de Moxotó era um buraco, daqueles bem fundos, onde a luz não bate. Nesses lugares, manda quem pode, obedece quem aprendeu que desobediência mata.”
O livro é ambientado na esquecida e judiada cidadezinha do interior de Pernambuco, Terezinha de Moxotó, onde mortes brutais estão ocorrendo. A cada lua cheia, a cidade é atacada por um ser bestial que trucida qualquer ser vivo que encontra pela frente.

Para dar fim ao monstro, o Coronel Jesuíno, atual “prefeito” da cidade, é chamado. Se acovardando em colocar seus jagunços em perigo e não havendo nenhum morador disposto a dar a vida na tentativa de matar a fera, o melhor personagem do livro, Zé Mindim, apresenta uma solução pouco ortodoxa: contratar o Capeta Caolho e seus comparsas para matar o lobisomem.

Jeremias Fortunato Silveira e seu bando são os mais sanguinolentos cangaceiros da região e o povo não vê outra solução, a não ser combater o mal com um mal igual ou maior.
“Não é uma ajuda que eu gostaria de ter, mas sabe como é… às vezes a única ajuda que tem é a que a gente tem que aceitar.”
“É uma coisa dura, coronel… amar uma coisa que a morte levou, ô se é. E ele amava a família, claro que amava. Ainda era um menino. Não tinha maldade. Não tinha ódio. Essas coisas a gente aprende, vendo os exemplos.”
“Pego na mentira, o matuto deu um sorriso da cor dum arroto de cu e olhou em volta.”
“não existe sofrimento maior do que amar aquilo que morre. E naquele momento, eu vivia meu próprio inferno.”
“Sempre há uma dor maior, e a gente só sabe disso quando sente. Ou quando perde. Eu perdi muito ali além dos sentidos. Perdi o resto da minha humanidade.”
Dentro desta atmosfera, Terezinha de Moxotó e seus habitantes nos são apresentados com toda a importância merecida, um povo sofrido, curtido pela seca e pelo sol, esquecido pelo resto do mundo.

A escrita do autor nos propicia uma visualização de toda cidade e de cada personagem, como se fosse um filme.

Tudo em tons ocres e beges (e bastante respingos vermelho sangue), a dura vida no sertão (que nos dias atuais não está tão diferente assim) nos é narrada de uma forma dura, com gírias e maneirismos regionais, personagens bem definidos e construídos dentro de cada arquétipo apresentado.

Everaldo é sublime na sua escrita, de uma forma direta, sem floreios descritivos, consegue nos passar toda sofreguidão dos personagens não só pelo temor causado pela besta, mas também pela vida humilde e sofrida de cada um.
Um livro fluído, que transporta o leitor ao sertão nordestino dos anos 20, com uma boa dose de sobrenatural nacional, excelente leitura, mega indicada!

resenha by Tatiana Mesquita

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