“Quem tem medo do feminismo negro” – Djamila Ribeiro

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Em 2018, comecei a pensar mais em relação a como me tornei mulher, feminista, empoderada e consequentemente mais humana. Tudo começou quando entrei para o “Grupa”, coletivo de mulheres apaixonadas pelo Clube Atlético Mineiro, há quase 2 anos.

 Depois fui me interessando cada vez mais pelo assunto e participei do lançamento do livro da Marcia Tiburi (vide resenha do livro dela aqui no blog).

De lá pra cá, conheci mulheres incríveis e também iniciei minha participação no coletivo feminino “Jardim de Angela”, em São Bernardo do Campo, cidade onde moro.

A cada encontro e bate papo no WhatsApp com essas mulheres maravilhosas, vários temas são colocados em discussão, damos dicas de documentários, filmes, livros e textos de várias escritoras que falam sobre feminismo, racismo, empoderamento, política. Foi assim que acabei conhecendo Djamila Ribeiro, e, claro, me encantei por ela.

Quando descobri que ela iria na Bienal do Livro em São Paulo, dei um jeito de me programar para pelo menos conhecê-la e pegar um autógrafo. E deu certinho!!!!!

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No dia seguinte comecei a ler “Quem tem medo do feminismo negro?”, e não consegui parar mais. A cada texto um soco no estômago e uma chuva de conhecimentos e pensamentos diversos. Dentro de mim uma reviravolta incrível e até momentos de raiva por ter sofrido e cometido atos preconceituosos e racistas.

Neste livro, Djamila nos mostra como o feminismo negro é negado a todo tempo pela população, como tentamos invisibilizar o movimento feminista negro a todo  momento, como somos um país extremamente racista. Ele reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados no blog da revista CartaCapital, entre 2014 e 2017. A filósofa e militante recupera memórias de seus anos de infância e adolescência para discutir o que chama de “silenciamento”, processo de apagamento da personalidade por que passou e que é um dos muitos resultados danosos da discriminação. Somente no final da adolescência, ao trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, que Djamila entrou em contato com autoras que a fizeram ter orgulho de suas raízes e não mais querer se manter invisível. Desde então, o diálogo com autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, bell hooks, Sueli Carneiro, Alice Walker, Toni Morrison e Conceição Evaristo.

Muitos textos reagem a situações do cotidiano como: o aumento da intolerância às religiões de matriz africana; os ataques a celebridades como Maju ou Serena Williams – a partir das quais Djamila destrincha conceitos como empoderamento feminino ou interseccionalidade. Também são  abordados temas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Estados Unidos e no Brasil, além de discutir a obra de autoras de referência para o feminismo, como Simone de Beauvoir.

Eu, Lívia, sou de família negra, por parte de mãe, tenho o cabelo crespo, mas nasci com a pele branca como a família do meu pai. Já ouvi muitas histórias tristes contadas pela minha mãe e minhas tias, sobre como foi difícil a infância e adolescência delas, e a chegada à fase adulta.

Eu nunca sofri na pele o racismo, sei que sou uma mulher branca cheia de privilégios, mas por ser filha, neta, sobrinha, prima e amiga de negra, fui várias vezes deixada de lado de atividades escolares pois meu cabelo era feio e não dava pra fazer alguns penteados, ou porque minha mãe era preta, ou porque era amiga da menina preta da escola, e por aí vai. Fiquei anos da minha vida com vergonha do volume do meu cabelo, negando meus crespos através dos processos de alisamentos. Ler o livro da Djamila me trouxe tantas reflexões, fiquei muito incomodada com algumas situações narradas por ela, várias até desconhecidas por mim, como: pessoas que ficaram famosos por serem racistas; pessoas que acreditam em racismo reverso (“Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios”. Pág 41); a blackface, quando nos fantasiamos de nega maluca, sendo que as mulheres negras são tão discriminadas por conta dos cabelos crespos e a cor da pele; quando a Xuxa publicou uma foto de crianças trabalhando no sinal e tornou um fetiche a pobreza (“Como é incrível perceber estes atos que para os brancos podem não ser nada e pare lá negros é mais do que corriqueiro e diz tanto do preconceito”), entre muitos outros.

Na página 63, quando a autora fala de um comentário de um senhor no jornal Zero Hora: “é sabido que pessoas negras têm propensão natural ao crime e são menos qualificadas, e que é justamente isso que lotam presídios no Brasil”, meu estômago revirou inteiro e eu não conseguia acreditar em como uma pessoa poderia ser capaz de cuspir tantas inverdades em poucas linhas.

Bom, acredito que já me prolonguei demais neste texto e não quero contar tudo o que de maravilhoso existem nestas 145 páginas.

Deixo com vocês as últimas palavras do livro e peço que negro ou branco, homem ou mulher, leia esse livro!!!

“Não podemos mais naturalizar essas violências escamoteadas de cultura. A cultura é construída, portanto os valores dela também são. É preciso perceber o quanto a retificação desses papéis subalternos e exotificados para as negras nega oportunidades para desempenharmos outros papéis e ocuparmos outros lugares. Não queremos protagonizar o imaginário do gringo que vem em busca de turismo sexual.

Basta! Já passou da hora!”.

Aproveitem essa grande obra! Boa leitura!!!  Ahhh e me contem o que acharam!!!

Beijos!

Lívia Lima

@titialitalendo

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